setembro 29, 2010

Edificando



É estranho quando algo que deveria durar pra sempre termina. É estranho não o ver mais todos os dias e é estranho não receber mais ligações sempre antes de dormir.
Mas estranho mesmo é o ver, mesmo depois de 4 ou 5 meses. Estranho é perceber como ele parece exatamente o mesmo, só que completamente diferente.
Ele se tornou aquele cara que as feições e os jeitos, você conhece decor. Mas agora é tão distante. Aquele rosto que costumava acordar do seu lado todo fim de semana, agora é frio, e te encara com reprovação ou até mesmo desprezo. Aquelas mãos que costumavam ser, de vez enquando, parte de você, nem acenam mais. Aqueles olhos que já foram tão admirados e você descobriu todas as suas cores, não te olham mais. Você jurava que tinha se tornado uma pessoa diferente, mas era só você, e o efeito que você causava. Agora que está sozinho voltou a ser frio, superficial e fútil. Características, essas, que você lutou tanto pra manter distante daquele que havia se tornado a luz do seu ser. Mas não. Não é mais aquele.
O cara das suas lembranças morreu. E agora naquele corpo que você tanto adorou, abraçou e beijou, mora um estranho. Aquela alma que você jurou amar, já não se importa com o que é amor. E você ainda se preocupa, ainda imagina se ele já está descansando, se já chegou em casa... "Meu Deus, o que pode acontecer?" Por que você não mudou. Você ainda ama e se importa, pensa, se preocupa. E se revolta, ao ver tanto amor sendo ignorado e substituído por coisas pequenas, pequenas bebidas, pequenas drogas, garotas pequenas.

E é quando isso dá lugar para o seu amor próprio crescer. E ele cresce!
Você se ama, se cuida, se diverte e faz amigos. Faz amigos!
O amor próprio continua a crescer, e ele é forte, forte e grande. Cada vez maior, e te faz enxergar que você pode ser sempre melhor, ser sempre mais, ter sempre mais. Mas é preciso ter cuidado. Junto com o crescimento desenfreado do amor próprio vem o orgulho, que sempre traz consigo um pouco de egoísmo. E é essa (e apenas essa) parte de você que precisa ser controlada. Isso é aprendido, superado, e agora você continua aprendendo coisas e superando desafios. Com o tempo a ferida vai se curando e cada vez mais parece que você ainda tem um coração inteiro.

O coração é involuntário, você sabe. Só quer sorrir e se esquece que sempre pode ser quebrado uma vez mais.
Mas agora está tudo bem, estando inteiro a previsão é se quebrar. Não apenas se quebrar. Antes de se quebrar vêm muitos sorrisos, beijos, carinhos, e noites quase inteiras de conversa.
E ele se vê evoluindo, achando alguém melhor. É tão gratificante ter alguém que supera quase todas as expectativas que você pensava existir.
Alguém que além de te olhar, te vê. Com carinho e admiração, te olha querendo te conhecer. Alguém que além de te abraçar, te aquece, te beija. E te faz crer que, com o tempo, tudo cresce, tudo evolui. Alguém que tem um sorriso lindo (te faz crer que seja o sorriso mais belo que já existiu). E a mesma boca que te beija e te encanta com um sorriso incrível, diz que gosta muito de ti. Não tem medo de parecer inseguro e pede que possa confiar em você. Não precisa esconder insegurança nenhuma pois, apesar de que toda resposta que consegue dar é "Também gosto muito de ti!", ainda sabe de sua beleza, e todo amor que pode ter por dentro.
E, por fim, você também é insegura e teme que isso também passe com o tempo e te decepcione ainda mais...
Tudo bem, ainda tenho meu coração inteiro e pulsante por novos sorriso, e os seus, o fazem tão feliz!

"O meu vazio já foi preenchido, e transborda."

setembro 23, 2010

Keep going, heart.

Não vai voltar.

Compreendo que somos todos esburacados, que sentem necessidade de se completar. E mesmo assim, do modo que vejo, nada nos completa de verdade. São vastos os buracos, e seriam necessárias coisas demais pra completar isso tudo.
Mas deixando os enfeites de lado, cansei de idiotas. Vazios e sem sentido. Pessoas que são simplesmente levadas pela corrente já não me satisfazem.
Procurei alguém preencher meus buracos, mas são profundos demais. E então descobri que eu sou o único alguém que pode me preencher.
O que você faz aqui? Ora, meu bem, você é a beleza disso tudo!

Não, não vai voltar. A vida é bela e muito mais feliz quando se olha pra frente!

setembro 22, 2010

“E eu corro no espelho de novo e repito cem vezes que não gosto de você. Não gosto de você. Não gosto de você. Porque se eu gostar de você, eu sei que você vai embora. E eu simplesmente não agüento mais ninguém indo embora. Porque nessa vida maluca só se dá bem quem ignora completamente a brevidade da vida e brinca de não estar nem aí para o amor. E eu preciso me dar bem e por isso ignoro minha urgência pelo amor. Porque, se você sentir urgência em mim, vai é correr urgente daqui. Chega.”
Tati Bernardi
Quando estou sozinha tenho a impressão de estar me iludindo, mas não deixa de ser bonito. Pois quando não estou, não parece ilusão e ainda sim é surpreendentemente belo.

setembro 02, 2010

"Porque todos me dizem que sou demais precipitado, que coloco palavras em todo meu processo mental (processo mental: é exatamente assim que eles dizem, e eu acho engraçado) e que isso assusta as pessoas, e que é preciso disfarçar, jogar, esconder, mentir..."

Caio Fernando de Abreu

setembro 01, 2010



Nada pode ser mais triste que isso. Um sonho quebrado, espatifado no chão. Vermelho sangue. E você tenta olhar pra ele sem dor e pensar que vai ficar bem, mas ele está lá em todos os seus sonos, suas tarefas diárias, no ônibus, nos livros, na comida, na água do chuveiro, está lá… caindo sobre você, encostando em você, cutucando você, espreitando entre seus pensamentos, entre o seu trabalho. Não dá pra fugir. Ele está lá, espatifado na poça de sangue vermelho escarlate. Opaco. E então vêem as lágrimas, e o mais difícil é quando veêm e você não pode chorar, pois está em algum lugar público. Um ônibus, o trabalho a faculdade e os amigos. O mais difícil é enfrentar os amigos. Sorrir, quando os músculos do seu rosto não te obedecem e você pensa que a dor no estômago (no peito, nas pernas, nas costas, no couro cabeludo) vai te engolfar e você vai se dobrar pra frente, segurando-se na parede, vendo o chão ficar mais perto, depois escuro e depois silêncio. Difícil segurar lágrimas que insistem em ficar nadando nos seus olhos, prestes a cair, rolar pelo rosto. Inútil olhar pra cima, piscar de leve pra não forçar a descida, pensar em algo bom. Não pode haver nada de bom quando ele está lá, espatifado, puro sangue. Quando você se vê levemente sozinha e a dor parece ainda maior, uma lágrima insistente escorre e você não quer enxugar. Sabe que o movimento de levar a mão ao rosto e secar aquela lágrima, vai trazer muitas outras. Tenta desesperadamente apertar o passo, chegar em casa, subir o elevador (que magicamente está muito mais lento). Tenta abrir a porta sem tremer, querendo desesperadamente entrar, e a chave nunca pode deixar de cair nesse momento. Ela tem que se espatifar fazendo barulho e algum vizinho tem que abrir a porta nesse momento, carregando um saco de lixo pra levar até a lixeira e te flagrar no ápice da dor, sorrindo e fingindo não ver. E você também sorri (ou tenta) e na voz mais abafada que já se ouviu falar, diz oi, engasga nas próprias palavras como dentes quebrados e a gengiva dolorida dá vontade ainda maior de entrar, fugir, ficar sozinha. Pega a chave desesperadamente e entra emfim. Engraçado como se espera tanto estar sozinho e de repente a vontade é de voltar lá fora, por que é tão assustador estar sozinho. E as lágrimas cessaram, nem uma vontade de chorar, só vazio e dor enrigecida. Respirar é difícil. Você se força a andar, ir até algum lugar deixar a bolsa, os pesos. E quando faz o primeiro gesto natural (e rotineiro) parece que o resto fica tão fácil. Suas pernas andam até o quarto, seus braços e mãos tiram a roupa, você se guia até o banheiro, tão natural, tão bem. E o banho é quente, demorado, tranquilo. E você se veste e é nesse momento que tudo volta. Dor, lágrimas, asfixia, morte. Seus membros parecem enrigecer-se tanto que você precisa sentar, deitar, fazer algo. A parede mais perto parece tão convidativa e você se encosta, sentando aos poucos. Ah, o desespero. O desespero, o momento da explosão, o choro convulsivo. Aquele choro que parece vir de dentro da sua alma, de algum lugar que está tão longe de você mesma, algum lugar profundo, dolorido, e vem subindo, fisgando, doendo, ardendo até você soluçar, dobrar-se, sentir os músculos doloridos, os olhos explodindo um rio de lágrimas, até você pensar que vai desidratar e morrer. A dor, impiedosa de desejar uma abraço. Quente, macio, tranquilizador. A dor de precisar das palavras de alguém. A dor terrível de precisar ouvir um “shhhh, vai ficar tudo bem”. Essa voz nunca chega, as palavras nunca te alcançam, os braços jamais circulam seu corpo. E humanamente normal, você se recupera. A respiração volta ao normal, você para de tossir e chorar ao mesmo tempo, e só resta a pior dor de todas, aquela dor vaga. Vazia, fria, congelada. Seu corpo parece oco e sem órgãos, e por minutos sem fim você fica olhando o nada, sua boca seca sem que você a molhe com a ponta da lingua, o rosto inchado fica imóvel e vai perdendo a cor aos poucos. É de se pensar que não suportará mais nada. Mas o ciclo da vida é cruel e você se vê levantando e andando até a cama. Dormindo pesadamente, acordando de manhã pra trabalhar, tropeçando no sonho espatifado, as vezes escorregando no sangue, tendo vontade de chorar de novo e se refazendo. E assim, a vida continua (…)