setembro 20, 2011

My(missed)self

Sentia falta de algo já há algum tempo. Uma força que costumava me empurrar, incentivar. Um impulso. Impulso esse que esteve lá desde sempre, e sem aviso nenhum abandonou-me.
Senti tanta falta desse impulso. Nada mais parecia ter a graça que costumava ter. Comecei a culpar as pessoas, os lugares, situações.
Quando percebi do que o impulso era feito tudo ficou mais fácil. As cores foram realçadas e os contrastes voltaram a ser chamativos.
De mim. O impulso era feito de mim. Parece fácil falando assim, e como eu gostaria que fosse.
Mas olhe só: se perdi o impulso significa que, em alguma parte do caminho, me perdi também. Isso já não parece tão fácil.
Relaxei, diminuí a importância dada ás coisas que são realmente importantes. Esfriei. Foi preciso que o tempo passasse para que eu percebesse que o que estava me fazendo falta era eu mesma.

maio 27, 2011

Pensei em colocar a cabeça dele no meu colo, tomar suas mãos, cantar, fazer carinhos. Mas só consegui ficar muito próxima. De alguma forma queria dizer que tudo aquilo importava pouco. Se soubéssemos controlar a nós mesmos, ao nosso terror, e poupar o gasto exagerado de tudo que tínhamos armazenado, nada aconteceria.
Caio Fernando Abreu

março 23, 2011

Não deixeis reclusar

Já penso em me fechar e isso não pode acontecer. Sabe, as pessoas já são fechadas demais. Ninguém conhece ninguém, e nós - na maioria das vezes - vivemos com medo. Isso também não deveria acontecer.
Vivemos em sociedade, ou seja, somos todos feitos basicamente da mesma matéria, temos que conviver no mesmo espaço, e, por mais estranho que seja afirmar, temos praticamente os mesmos medos. Temos medos uns dos outros, nos mantemos distantes, sem se envolver, sem confiar, com escudos e muros altos... Isso tudo porque a gente se machuca. Mas tá tudo bem, é assim mesmo. A gente se machuca.

Victória D. Medolago

março 15, 2011

Do fundo do coração ou Love Love Love

Sempre acreditei que quando a gente entra em uma igreja pela primeira, vez vê uma estrela cadente ou amarra uma fitinha de Nosso Senhor do Bonfim, pode fazer um pedido. Ou três. Sempre faço. Quando são três, em geral, esqueço dois. Um nunca esqueci. Um sempre pedi: amor.
Nunca tinha tido um amor. O quê? Aos 35 anos, agitando desse jeito? Explico: claro que tive dúzias e dúzias, outro dia tentei contar e me perdi na altura do número cento e trinta e muitos. mas tudo rapidinho, assim, uma hora, um dia, uma semana, um mês, pouco mais. Nunca, digamos, UM ANO. Então quando alguém suspirava e dizia cara estou saindo de um caso de DEZ anos, meu olho arregalava de pura inveja. Histórias mais compridinhas, claro que rolaram. Maria Clara, por exemplo, mas a gente morava, eu em Sampa, ela no Rio, amor-ponte-aérea. Caríssimo. Isso, das moças. Dos moços, aquele bailarino americano em London, London, quatro/cinco meses. Talvez seis? Numa tarde de compras e roubos em Portobello Road me deu de presente um cacto (perfeito!) e me deixou plantado até hoje. Esse era amor-de-metrô, último trem entre Hammersmith e Euston. Onde andará? ("Onde andará?" é das perguntas mais tristes que conheço, sinônimo de se perdeu.)
Eis que de tanto pedir, insistir, acender vela, fazer todos os feitiços para Santo Antônio e Oxum e concentrar, rezar, mentalizar, eis que pintou. Ano passado me baixou um encosto de São Francisco de Assis, joguei (literalmente) pela janela quase tudo que tinha e, com duas malas, parti para o Rio. Não queria mais me prender a nada. Nem a Sampa, bem amada. Numa ida a Porto Alegre, em agosto, deu-se. Explosão à primeira vista. Tudo o que dissemos, depois de um suspiro de alívio, foi: eu amo você. Pasmem: verdade das verdadeiras. Ousadias do coração que saca, na hora, a intensidade do lance. E não disfarça. Bueno, tinha pintado.
Então tá. Romance comme il fault: dias numa casinha no meio de bosques em Gramado. Depois a volta ao Rio e, como dizia a Ana Cristina Cesar (Aninha, Ana C., a bela, que falta você me faz menina fujona!) "amizade nova com o carteiro do Brasil." Laudas e laudas de cartas de amor, uma por dia, duas por dia, dez por dia. Fotos, poemas, juras interurbanas. Voltei. Nós fomos os dois para o Rio. Dois meses lá: o amor resistia, mas nenhum estava a fim de pegar no pesado. Então fazer o quê? Dividir quarto de pensão na Lapa, andar de ônibus, comer espiga de milho e misto quente? Nenhum acreditava em teu-amor-e-uma-cabana, também não era preciso teu-amor-e-um-rolls-royce (seria ótimo), mas pelo menos uma vitrolinha para fazer amor ao som do Bolero, de Ravel (amor tem desses lugares-comuns quase inconfessáveis). Voltamos. Verão em Torres. Camas de trinta horas. Passeios. Dunas, praia da Guarita. Filme. A sunga verde de lycra.
De repente uma luzinha vermelha começou, cigarro no escuro, a piscar dentro de mim. Foi no carnaval que passou. Suspeitas: porra, eu me afastei de tudo, de todos, joguei tudo pro alto e só quero esse amor, nada mais em interessa, se esse amor de faltar (pode?) eu só tenho isso, é o único laço que me prende à vida - e se falta, Deus, se faltar o que faço? Noites paranóicas, medo Ritchie. E... se dançar? Aí dançou.
Foi dançando. Não sei bem como. Uma tarde peguei nas mãos e, bem cruel (punhais: como a gente sabe apunhalar com engenho e arte, crava devagarinho a lâmina, depois revira, dentro da ferida), pedi assim: me olha bem dentro dos meus olhos e me responde à seguinte pergunta: "Você não me ama mais?" Silêncio era tão espesso que consegui ouvir o ruído do movimento da rotação da Terra. Feito na novela das seis, eu abri a boca quando ouvi uma resposta. Um lento não. Um claro não. Um seguro não. Um límpido não. Um tranquilo não. Um sem dúvida alguma não. Um sem volta não. Um para-sempre não. Um negativo não. Repete, pedi. Repetiu. Pede-se não enviar flores, pensei. Fechei a porta. Fiquei só, chovia. Com requintes de alta piedade, limpei devagarinho com feltro um disco da Elis, deitei no chão e ouvi umas cem vezes "Se eu quiser falar com Deus". Quando já ia abrir o gás, corri para o telefone e pedi ao Zé Márcio Penido em Sampa: socorro. Vem, ele disse. Santo amigo. Fui, na mesma hora. Me estonteei, vi todos os filmes, todas as peças, revi todos os amigos, ouvi todos os discos, namorei o que deu. Tinham sido NOVE MESES de fidelidade absoluta, nada imposto, o que é pior: supernatural... Fidelidade, no amor-amor, é sempre supernatural. Quando decidi estou-ótimo-fullgás-total-posso-voltar, voltei. The reencontro: quando dei por mim estava dizendo as coisas mais duras e agressivas e cruéis e impiedosas e injustas e ferinas e baixas e grossas que uma pessoa pode dizer à outra.
Comecei a me perder pela cidade. Selecionei vinte gatos & gatas mais lindos do pedaço, dez semifinalistas, cinco finalistas, transei todos. Saí sem parar. De bar em bar, telefone tocando sem parar. Explodindo de vitalidade e saúde e sedução: capacidade de superação. Puxa, gente, como sou maravilhoso, como sou maduro e equilibrado, como sei dar a volta por cima, como não sou careta, como sou morderno e liberadésimo. Aí, desabou. Dez dias. De manhã bem cedo, chegando da vida, percebi uma pequena rachadura na parede externa do edifício. Avançava lentissimamente. Ao meio-dia rachou de alto a baixo. O edifício veio ao chão: me interna, pedi pra mãe, estou infeliz pra caralho. Peguei o pacote de cartas que tinha pedido de volta (fiz absolutamente todos os números, o problema é que a platéia estava vazia: ninguém aplaudiu minha melhor sequência de sapateado), coloquei aos pés de Ogum.
E agora Caio F.? Agora, estou amanhecendo. Ah, me digo, então era assim. Essa coisa, o amor. Já conheço? Já conheço. Mas como é mesmo que se chama? Também não estou certo se estarei mesmo amanhecendo.Talvez, sim, anoitecendo, essas luzes penumbrosas são muito parecidas. Não sei muita coisa. Quase nada. Pedi? Levei. Nunca tinha sido tão intenso, nem tão bonito. Nunca tinha sido de um jeito tão forever. Não me diga que vai passar, vai passar, vai passar, vai passar. Não me diga que foi ótimo, o que você queria, a eternidade? Não me peça para não te encher o saco lamuriando. Posso não saber nada sobre o coração das gentes, mas tenho a impressão de que, de tudo, o pior é quando entra a segunda parte da letra de "Atrás da porta", ali no quando "dei pra maldizer nosso lar pra sujar teu nome, te humilhar". Chico Buarque é ótimo pra essas coisas. Billie Holiday é ótima pra essas coisas. E Drummond quando ensina que "o amor, caro colega, a esse não consola nunca de núncaras". Aí você saca qeu toda música, toda letra, todo poema, todo filme, toda peça, todo papo, todo romance, tudo e todos o tempo todo, antes, agora e depois, falam disso. Que o que você sente é único e & indivisível e é exatamente igual à dor coletiva, da Rocinha a Biarritz. O coro de anjos de Antunes filho levanta no ar, em triunfo, os corpos mortos de Romeu e Julieta enquanto os Beatles pedem um little help from my friends, a plateia ainda aplaude e pede bis (o Gonzaguinha também é ótimo pra essas coisas). Meus amigos, abandonados para que eu pudesse mergulhar, voltaram a mil. Tem seus prazeres o fim do amor. Se é patologia, invenção cristã-judaico-ocidental-capitalista, ou maya, ego, se é babaquice, piração ou mudou-através-dos-tempos, puro seco, carência, medo da morte: não interessa. Ele existe.
Por isso falo dele: Joyce e Paula me pediram elucubrações, as minhas são estas. Estou contando a vocês que estou fazendo elocubrações sobre o amor porque provavelmente, de uma outra forma vocês aí que me me leem, talvez com tédio, mas pensando a mesma coisa. O bicho homem não faz outra coisa a não ser pensar no amor. Até as relações de produção, a luta de classes, a ecologia, o jogo pelo poder: tudo, questão de amor. Formas de amor. Amor é a palavra que inventamos para dar nome ao Sol abstrato em torno do qual giram nossos pequeninos egos ofuscados, entontecidos, ritmados. A vida toda. Mas se me perguntarem o que quero dizer com isso, não tenho resposta. O que quero dizer é justamente o que estou dizendo. Não estou com pena de mim. Tá tudo bem. Tenho tomado banho, cortado as unhas, escovando os dentes, bebido leite. Meu coração continua batendo - taquicárdico, como sempre. Dá licença, Bob Dylan: It´s all right man, I'm just bleeding. Tá limpo. Sem ironia. Amanhã, depois, acontece denovo, não fecho nada, não fechamos nada, continuamos vivos e atrás da felicidade, a próxima vez vai ser ainda quem sabe mais celestial que desta, mais infernal também, pode ser, deixa pintar. Se tiver aprendido lições (amor é pedagógico?), até aproveito e não faço tanta besteira. Mas acho que o amor não é cursinho pré-vestibular. Ninguém encontra seu nome no listão dos aprovados. A gente só fica assim. Parado olhando a medida do Bonfim no pulso esquerdo, lado do coração e pensando, pois é, vejam só, não me valeu.

Caio Fernando Abreu

fevereiro 25, 2011

"Me impede de ir. Fica parado na minha frente e fala que eu tenho lugar por aqui, que não preciso abandonar tudo toda vez que a solidão me derruba. Me ajuda a levar a vida menos a sério, porque é só a vida, afinal."

Too bad

E me dá aquela vontade de fazer tudo sozinha. Comprar uma passagem pra Ubatuba, alugar um barquinho e sumir no horizonte. Procurar aquele tal lugar onde as pessoas são felizes, não se afastam, não se traem nem se cansam.
Sabe o que cansa? Realidade cansa, desânimo cansa, rotina, claro, cansa. Pessoas me cansam, falta de pessoas me cansa. Previsão de solidão assusta.
Assusta ficar sozinho. Assusta pensar em sentir falta. Assusta tanto que dá vontade de jogar tudo pro alto e mudar de cidade, de vida, de amigos, de corpo, de personalidade, de alma...
Já me assustei. A ponto de achar que não seria nada sem os estranhos que fazem parte do meu dia a dia e enfeitam o cenário rotineiro, que não daria pé, que eu seria de menos e choraria até o fim das lágrimas, sozinha e assustada.

E é isso que mais assusta: Ser assustada.

Depois penso: Tudo isso é normal. Já não é a primeira vez que acho que será a última. Gosto de drama e exagerar no medo, de dificultar. O pessimismo é minha cara.

E então, já que já sobrevivi ao medo algumas vezes, a tristeza ainda não me derrubou e raiva nenhuma me queimou viva, andei pensando em aguentar mais um pouco dessa vez. Não sou um poço de credo e otimismo, mas pode ser bom, sabe, mudar um pouco. Apesar do susto, pode ser bom... Afinal, o que na vida não assusta?

Victória D. Medolago

fevereiro 03, 2011

"Na minha memória
- tão congestionada -
e no meu coração
- tão cheio de marcas e poços -
você ocupa um dos lugares mais bonitos."