agosto 25, 2010

Amor de ponto de ônibus

Aí você sai de casa às 7h da manhã para ir ao trabalho, num clima que não se decide se chove ou faz sol, mas que de um jeito ou de outro vai lhe incomodar. Pudera. São 7h da manhã. Claro, se você acorda às 6h, pra sair às 7h e chegar no trabalho às 9h, é porque você não tem carro. Logo, ainda lhe resta encarar um cheio, sujo e chacoalhante ônibus.

A mochila, que normalmente tem no máximo uns 2 quilos, parece pesar um saco de batatas e seu All Stars novinho incomoda mais do que se você estivesse descalço no aslfato. Pais levando seus filhos mal-criados para a escola buzinam loucamente, de modo que nem headphones tocando Mastodon no máximo vão lhe livrar da barulheira.

São 7h da manhã, e nem o cheiro de pão quentinho na padaria e os R$ 10 que você achou no chão vão lhe animar. Tem mil e quinhentas pessoas no ponto de ônibus, e isso não ajuda nem um pouco a melhorar o seu humor. Aliás, até chegar às 18h da sexta-feira, NADA vai melhorar o seu humor.

Ou quase nada.

Mochila verde escura cheia de bottons, cabelos curtos e cacheados, All Stars branquinhos iguais aos seus, olhos castanhos claros, blusa azul escura minuciosamente amassada e exatos 1,65m de altura que só Deus sabe como você mediu. Ela está lá, ouvindo alguma música bem pop no iPod, por mais poser que o short jeans cinza escuro a faça parecer.

Paradinha, quase completamente desligada do resto do mundo, cantarolando Lady Gaga bem baixinho, só mexendo os lábios. Ou poderia ser Primal Scream, ou Dead Weather, ou Pato Fu, ou qualquer outra banda que coincidentemente você também adora, ou um podcast bem retardado que você achou que só malucos como você acompanhavam, ou entMEU DEUS DO CÉU LÁ VEM O ÔNIBUS E AGORA? Como você vai saber se ela tem cheiro de perfume Carolina Herrera?

Sorte sua que Joseph Climber é um sábio, e a vida é uma caixinha de surpresas. Por intervenção divina ela entra no mesmo ônibus que você, para bem na sua frente na hora de pagar a passagem, fica em pé costa a costa com você enquanto não tem lugar vago e senta bem do seu lado quando os dois carinhas que estavam medindo seus bíceps em voz alta resolvem descer.

Aí você descobre que ela usa SIM perfume Carolina Herrera, e que lê revista da Turma da Mônica, e que faz faculdade de jornalismo na mesma faculdade que você fez, e que ela tem vergonha de olhar as pessoas nos olhos e que ela é exatamente do jeitinho que você imaginou que o grande amor da sua vida deveria ser.

E você fica imaginando cada programa esdrúxulo que vocês fariam no fim-de-semana, e cada complicação na hora de escolher que filme vocês vão baixar porque cinema tá caro, e cada vez que ela ia tropeçar nos próprios pés e rir de si mesma, e cada jantar num bistrô exótico em que ela achasse normal pagar R$ 80 num sorvete, e cada noite acordado junto com ela ajudando-a a fazer aquela série de reportagens chatas sobre ONGs para aquela professora megera…

Você a olha discretamente, reparando em cada mínimo detalhe, percebe (ou acha que percebe) que ela também lhe dá uma espiada marota, disfarça, tenta ser displicente, quase com se o simples fato de ela estar ali do seu lado no ônibus seja um encontro, um flerte. Cogita que ela possa descer no mesmo ponto que você, para que de repente vocês troquem duas ou três palavras despretensiosas e você consiga majestosamente descobrir o nome dela.

Especula até que, por uma conjunção dos astros, ela possa estar indo para o mesmo lugar que você, com algum interesse completamente inesperado que futuramente vai ser motivo de risadas entre vocês num domingo chuvoso em que a única coisa a fazer será ficar debaixo do edredon assistindo aquela série que ambos estão atrasados. Ou dormindo. Ou comendo porcaria. Ou brigando. Ou fazendo as pazes.

A sua fantasia o leva até a pensar que “Deus do céu, parece coisa de filme”, o leva a ter esperanças de um final feliz, o leva a pensar que essa história de destino é verdade e que por uma grande ironia do universo ou de um gerador de improbabilidade infinita você estava no lugar certo, na hora certa e com a motivação certa. “Minha hora chegou!”

Aí ela desce do ônibus.

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